Vamos “caçar” satélites?

Todas as quartas-feiras, a partir das 18h30min, o Planetário disponibiliza, de forma gratuita, seus telescópios ao público para a observação de objetos celestes. Esta é uma de minhas atribuições mais prazerosas como astrônomo da Fundação Planetário: atuar na observação pública do céu. É uma atividade lúdica, que permite ao visitante a observação da Lua, dos planetas e das nebulosas, sob a supervisão de astrônomos. Durante as atividades, é comum as pessoas fazerem perguntas e surgir debates bem interessantes.

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Cúpulas dos telescópios da Fundação Planetário.

Infelizmente, alguns fatores podem atrapalhar e inviabilizar a observação do céu: céu nublado ou parcialmente encoberto, que impedem a realização da atividade. Além disso, nem sempre temos no céu a Lua ou algum planeta. Foi esse o caso da observação no dia 22/02/17. Sem Lua, sem planetas e, ainda por cima, uma fina nebulosidade. Por sorte, estava prevista a passagem da Estação Espacial Internacional durante o horário da observação do céu, e o público foi brindado com uma bela e intrigante visão.

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Estação Espacial Internacional – ISS

Pouca gente sabe, muitos talvez até já tenham visto sem saber o que era, mas é possível observar a Estação Espacial Internacional (ISS – sigla em inglês para International Space Station) numa noite de céu aberto. E o melhor, sem o auxílio de telescópio ou de binóculo.

Ela gira ao redor da Terra numa altitude de 400km, dando uma volta completa em cerca de 1h30m. Graças ao seu tamanho, essa “casa” espacial de mais de 500 toneladas, consegue refletir para a Terra uma boa quantidade da luz do Sol, tornando-a um alvo brilhante para o observador. Pois bem, na noite do dia 22 de fevereiro, por volta das 19h22min a estação surgiu bem visível rumando na direção Norte-Sul, e assim permaneceu por cerca de seis minutos, caminhando por entre as estrelas. Era como uma estrela, porém bem mais brilhante e em movimento. Uma visão inesquecível para quem estava no Planetário naquele momento.

Interessante não é? Que tal você tentar observar a passagem da ISS? Além de se aproximar um pouco do mundo da tecnologia espacial, você acabará aprendendo também um pouco sobre identificação das constelações e das estrelas mais brilhantes.

A órbita da ISS pode ser acompanhada por qualquer um que tenha um computador ou smartphone, e acesso à internet. Aliás, fique sabendo que não só a ISS pode ser vista. Outros satélites relativamente brilhantes podem ser observados num céu sem nuvens e, de preferência, sem Lua. O aplicativo que uso para monitorar a passagem dos satélites é o Heavens Above (http://www.heavens-above.com/), que produz uma carta celeste para o horário de cada passagem. A carta que ele gerou para esta passagem da ISS pode ser vista abaixo.

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Trajetória da ISS para o dia 22 de fevereiro de 2017.

Repare que a trajetória da ISS no céu é identificada por uma linha que cruza toda a carta e passa por várias constelações, como o Touro, o Órion e o Cão Maior. Alguns horários são colocados, para ajudar a achar o satélite no céu. Como você já deve ter percebido, é necessário um conhecimento mínimo sobre as constelações. Nada muito complicado, uma vez que você pode imprimir a carta celeste e compará-la diretamente com o céu. Com o tempo, conhecendo melhor o céu e o aplicativo, você poderá se programar com antecedência e, quem sabe, capturar uma bela foto como a abaixo, obtida na Nova Zelândia, durante uma passagem da ISS em 2014.

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Crédito: Andrew Caldwell

Em breve farei uma apresentação detalhada da versão do Heavens Above para computador, celulares e tablets, com dicas para o caçador de satélites iniciante.

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Paulo Cesar Pereira
Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro - Especialização em Astrofísica e atualmente está envolvido com História da Ciência. Desenvolve atividades na área de divulgação e ensino de Astronomia. http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4791842T2