Mulheres que Calculavam o Céu

Atualizados recentemente5

O dia 8 de março é dedicado à mulher. Entre os vários estereótipos sexistas que existiram por muito tempo foi a imagem de que ciência é coisa para homens, principalmente as chamadas ciências exatas. Com a Astronomia e demais ciências espaciais não foi diferente. A conquista espacial ficou, por muito tempo, associada a homens, sobretudo os astronautas. Faz algum tempo escrevi um post neste blog sobre mulheres astronautas e no meu blog pessoal também. Desde o voo de Valentina Thereshkova, a bordo da Vostok 5 em 1963, muitas mulheres tripularam naves espaciais. As mulheres têm participado da Astronomia desde muito tempo, não só tripulando naves, mas calculando o céu.

Hipácia, muito antes do feminismo

Hipácia uma das primeiras matemáticas que se tem notícia. (A direita: cartaz do filme Ágora).
Hipácia uma das primeiras matemáticas que se tem notícia. (À direita: cartaz do filme Ágora e o Astrolábio, atribuído à sua invenção).

 

Quer realmente um exemplo de mulher cientista que calculava o céu? Então vamos começar um bom tempo atrás, em torno do quarto século da era cristã. Estamos falando de uma figura muito notável: Hipácia. Na famosa biblioteca de Alexandria esta grande pensadora e astrônoma desenvolveu muita da matemática que usamos para compreender o céu hoje em dia. Seus trabalhos sobre as cônicas (curvas resultantes da seção de um cone) já apontavam para a mecânica celeste que, só mais tarde, nos levaria ao espaço. Sua posição avançada e inteligência aguçada lhe custaram a vida nas mãos de fanáticos religiosos no dia 8 de março de 415. Mais um motivo para lembrar desta data. Quer conhecer um pouco da sua história? Sugestão: assista o filme “Ágora” (no Brasil foi chamado “Alexandria”, lançado em 2009). A atriz Rachel Weisz interpretou Hipácia no filme.

As computadoras de Harvard e a Astrofísica Estelar

Slide2
Ao fundo a classificação espectral Harvard das estrelas. Ao centro, a líder do grupo Williamina Fleming (descobriu mais de 10 mil estrelas). À direita, Annie Jump Cannon (classificou mais de 300 mil corpos celestes). Abaixo à esquerda vemos um “frame” do episódio de Cosmos referente a Cecilia Payne.

A Astronomia sempre dependeu de cálculo, muito cálculo matemático. A astrofísica estelar deve muito a um grupo muito competente de mulheres reunidas pelo diretor do Harvard Observatory, Edward Charles Pickering. Naquela época os cálculos de astronomia eram feitos manualmente. A decisão de contratar mulheres tinha um quê de oportunismo, pois pagavam bem menos a elas que aos homens. O grupo ainda recebeu o desrespeitoso apelido de “Harém de Pickering”. Mas o grupo chefiado por Williamina Fleming rendeu muitos frutos para a astrofísica estelar que começava a se estabelecer. Vários nomes de peso saíram deste grupo. Annie Jump Cannon foi a criadora do sistema de classificação dos espectros de estrelas usado até hoje. Henrietta Swan Leavitt desenvolveu a lei que leva seu nome que relaciona luminosidade e período das estrelas variáveis Cefeidas. Esta lei foi uma ferramenta poderosa para determinar distâncias estelares. Cecilia Payne usou a classificação de Cannon para desenvolver uma tese importantíssima sobre atmosferas estelares. Para mais detalhes recomendo o episódio de Cosmos A SpaceTime Odyssey, intitulado ”Sisters of The Sun” (As Irmãs do Sol).

As Figuras Escondidas nas Estrelas

Atualizados recentemente4

Já imaginou quantos cálculos matemáticos um voo espacial exige? Outra área que a figura masculina dominava a cena. Para pôr uma nave em órbita é preciso calcular a órbita, o consumo de combustível, a resistência dos materiais e por aí afora. Mas quando a NASA foi criada, para ser uma resposta ao Sputnik 1, computadores eletrônicos ainda não eram fáceis de se usar, nem tão populares assim. Muito cálculo era feito praticamente à mão. Usava-se réguas de cálculo, tábuas de logaritmo e calculadoras mecânicas. Essas calculadoras eram “monstros” elétricos enormes e barulhentos. “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures, 2016) concorreu ao último Oscar de melhor filme. O filme revela a história de mulheres negras que formaram um grupo de computadores humanos que permitiram aos EUA ter sucesso no programa Mercury. Para saber mais visite o post Mulheres Escondidas nas Estrelas no blog Esquina Espacial. Ver também “Hidden Human Computers: The Black Women of NASA” –  

Uma jovem nerd no Programa Apollo

Margareth Hamilton, inventora da engenharia de software e responsável pelo programa das naves Apollo e sobretudo do Módulo Lunar que levou Armstrong e Aldrin a superfície do nosso satélite.
Margareth Hamilton, inventora da engenharia de software e responsável pelo programa das naves Apollo e sobretudo do Módulo Lunar que levou Armstrong e Aldrin à superfície do nosso satélite.

Ainda não fizeram um filme, mas o programa Apollo (bem depois do Mercury) também deve a uma mulher que calculava. Margareth Hamilton era bem jovem quando desenvolveu o ramo da engenharia de software. Ela desenvolveu os programas que regiam os computadores de bordo das naves Apollo. Seu programa salvou Armstrong e Aldrin durante o primeiro pouso lunar. O ex-presidente Obama condecorou-a no final de seu mandato.

A estas mulheres calculistas devemos muito do nosso conhecimento atual do espaço.