Testando a visão com as estrelas: um antigo teste árabe

Testando a visão com as estrelas: um antigo teste árabe

Na Idade Média, a óptica estava dando seus primeiros passos, e a oftalmologia estava longe de atingir seu estágio atual, altamente tecnológico e aperfeiçoado. Então, se você precisava testar sua visão, era comum recorrer à Astronomia. Um tipo de teste de visão era conduzido observando-se as estrelas e um, em particular, ficou conhecido como o teste árabe de visão. É esse o tema do nosso blog.

Assim como hoje em dia exige-se em algumas situações que as pessoas tenham boa visão (direção de veículos, por exemplo), mil anos atrás alguns casos demandavam pessoas com acuidade visual acima da média. Na Roma antiga exigia-se que os candidatos a arqueiros do exército imperial tivessem excelente visão, assim como no Oriente Médio em relação aos guerreiros e caçadores. Como se fazia naquela época para avaliar este quesito nos candidatos?

“Eu lhe mostro Al-Suha e ele me mostra a Lua”

-provérbio árabe

O teste de visão mais simples que podemos fazer quando visitamos o oftalmologista, consiste em tentar identificar, numa tabela, letras e/ou números de tamanhos cada vez menores, a uma certa distância (vamos chamar aqui, informalmente, de teste das “letrinhas”). Qualquer um que já tenha se consultado sabe do que se trata. A imagem abaixo é um exemplo de teste realizado para pessoas da língua árabe, numa justíssima referência ao tema do blog.

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Teste básico de visão adotado modernamente, em árabe.

No Oriente Médio era costume utilizar duas estrelas para avaliar a visão: Mizar e Alcor (também conhecida como Alsuha), ambas na constelação da Ursa Maior. Mizar é a mais brilhante das duas, e o teste consistia em tentar enxergar Alcor, bem menos brilhante, e distante 11 minutos de arco de Mizar. Este é o teste árabe de visão. As duas estrelas foram descritas num dos mais antigos manuscritos ilustrados islâmicos, escrito pelo astrônomo persa Al-Sufi, no século 10: “O Livro das Estrelas Fixas”.

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Ursa Maior – Livro das Estrelas Fixas, de Al-Sufi (903-986). A seta verde identifica Mizar (vermelho) e Alcor (preto). Crédito: Bodleian Library – Marsh 144.

Na bela foto abaixo, identificamos novamente as duas estrelas. Na Ursa Maior destacam-se sete estrelas que formam uma figura que lembra uma “caçarola” para alguns. Aliás, a “caçarola” é um dos asterismos mais famosos. 

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A “caçarola” da Ursa Maior, com as estrelas alvo do teste de visão. Crédito: Belinda Observatory/China

Há mil anos, este método era utilizado para avaliar a visão da tropa de elite do exército persa. Os beduínos da península arábica o utilizavam, inclusive, para avaliar a visão das crianças. Se você não pudesse identificar essas duas estrelas, em particular, provavelmente você não seria um bom guerreiro ou caçador.

Em seu livro, Al-Sufi vai além dos aspectos astronômicos e destaca uma curiosidade da cultura de seu tempo associada a estas estrelas:

“Acima de Mizar, e quase grudada nela, existe uma pequena estrela que os árabes chamam Alsuha. Em outros dialetos árabes, é conhecida por Al-Saidaq e não foi mencionada por Ptolomeu. Com essa estrela as pessoas testam a visão.”

Alcor, o nome que adotamos no blog, é o nome moderno dessa estrela (adotado na Renascença) e significa “fraca”. Logo em seguida, Al-Sufi menciona um famoso provérbio, que, segundo a tradição, costumava ser usado pelos companheiros do profeta Maomé:

“Eu lhe mostro Al-Suha e ele me mostra a Lua”

Ora, Alsuha significa “a esquecida”. No caso, a fraca estrela Alcor utilizada no teste de visão. Uma possível interpretação para o provérbio seria então: a pessoa consegue ver o óbvio, mas lhe escapam as coisas sutis.

Estudos recentes indicam que Mizar e Alcor estão ligadas gravitacionalmente com outras quatro estrelas. Ou seja, fazem parte de um sistema sêxtuplo! Outra curiosidade: a constelação da Ursa Maior, onde Mizar e Alcor estão localizadas, está presente na obra “Macunaíma”, de Mário de Andrade: o personagem Macunaíma se transforma na constelação da Ursa Maior.

Mas vamos ao que interessa, que tal refazer o antigo teste de visão árabe?

Infelizmente, nem todos os leitores poderão fazer o teste. Embora a Ursa Maior seja visível no Brasil, ela é uma constelação melhor observada do hemisfério norte. Por nosso país ser muito grande, quanto mais ao sul, mais difícil será de observá-la.

Para os estados do Nordeste, Norte, e parte do Centro-Oeste, ótima notícia: estamos em plena temporada da Ursa Maior. A carta celeste abaixo ajuda a identificar a Ursa Maior e as nossas estrelas-alvo. A carta pode ser usada nas regiões Norte e Nordeste, entre os meses de março e maio. Os habitantes dos estados da região Nordeste devem usar a carta às 23h, enquanto os da região Norte, à 0h. Vale a recomendação de sempre: procure lugares com horizontes livres, sem montanhas e prédios.

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Carta celeste válida para a região Nordeste, por volta das 23h, e região Norte, por volta das 0h. Mizar/Alcor, alvos do nosso teste de visão árabe, estão identificadas com um traço amarelo. O leste está à direita e o oeste à esquerda. A dica é olhar na direção norte, buscando um horizonte mais amplo possível, sem interferência de prédios ou montanhas.

Uma última curiosidade: um estudo médico recente indicou que a habilidade em separar visualmente as estrelas Mizar e Alcor, equivale modernamente à visão “20/20” no teste das “letrinhas”, e se encontra na faixa considerada “normal” para a visão. Estrelas bem interessantes, não é mesmo?