Como fotografar as estrelas com a câmera fixa

O método que vamos apresentar não necessita de equipamentos caros ou complicados, consistindo no primeiro contato com a fotografia astronômica. Não obstante, os resultados são altamente animadores e certamente motivarão o interessado a usar técnicas mais avançadas.

O método da “câmara fixa” permite que se fotografe estrelas bastante fracas (magnitudes 7 ou 8), visíveis somente por meio de equipamentos ópticos. Meteoros e satélites artificiais, além de cometas, nebulosas e galáxias também podem ser captados. Além dessas vantagens, a fotografia registra fielmente os astros, permitindo uma posterior comparação e divulgação.

Material necessário:

– câmara fotográfica. É fundamental que tenha a opção “B” no obturador, e que este seja mecânico e não eletrônico para evitar o consumo excessivo de baterias devido ao longo tempo de exposição.

Geralmente as câmaras vêm com uma objetiva com 50mm de distância focal, com a qual podemos capturar uma área do céu de 30 x 40 graus, o que permite fotografar constelações tão grandes quanto Órion.

– cabo de disparo. Sua função é manter o obturador aberto por longo tempo. Esses cabos têm um parafuso de bloqueio acionado no início e no término da exposição. Os cabos são também conhecidos como propulsores.

– filme. Os filmes devem ser de alta sensibilidade, pelo menos 400 ISO.

– tripé fotográfico. Devido à longa exposição, não se pode segurar a câmara; por isso ela deve ficar totalmente imóvel. Tripés muito leves podem ser afetados pela ação de ventos fortes. Na falta de um tripé, pode-se recorrer a uma base de madeira.

Ajustes preliminares

Instale a câmara sobre o tripé (ou base), de modo que fique imobilizada durante a exposição. Certifique-se de que o cabo irá travar o obturador e adpte-o à câmara. Regule o obturador para “B”. Ajuste o diafragma e focalize a objetiva para o infinito (¥).

A abertura máxima do diafragma, em princípio, seria o recomendável, mas as objetivas quase sempre apresentam aberrações que geram imperfeições nas imagens. Isto é mais evidente na periferia da foto e geralmente desaparece se fecharmos um pouco o diafragma. Por exemplo, se a objetiva tiver abertura máxima de 1,4, pode-se operar com 2,0 ou 2,8.

Prática

Aponte a câmara para a região do céu que se quer fotografar. Dê preferência, nos primeiros testes, a regiões familiares como Cruzeiro do Sul ou Três Marias. Dispare o cabo e trave-o. Decorridos 20 segundos, destrave. A foto está pronta. Nesse caso, o tempo é tão curto que mesmo com deslocamento da esfera celeste as imagens estelares permanecerão pontuais. Mas pode-se obter resultados bastante interessantes quando o tempo for maior, como 30 minutos ou mais (o céu não pode estar muito luminoso). Nestes casos, ao fotografar o Pólo Celeste, as imagens das estrelas aparecem como riscos, formando arcos concêntricos com o Pólo Celeste. Ao fotografarmos a região do Equador Celeste, as trajetórias das estrelas aparecem retilíneas.

Constelações de Órion e Cão Maior
Filme: Super HG 800 Fuji
Objetiva: 35mm f/d: 1,8 Tempo: 30s


Super Nova 1987A Autor: Francisco Bolivar Carneiro
Data: 26 de março de 1987
Filme: Ektachrome 64 ISO
Objetiva: 50mm f/d: 1,4 Tempo: 60min

O tempo máximo (em segundos) que se pode expor com a câmara fixa, sem que as estrelas trilhem, é dado por: 1000/distância focal da objetiva em milímetros. Isso se as estrelas estiverem próximas ao Equador Celeste (posição mais crítica).

Ficam bastante bonitas as fotos de estrelas tendo em primeiro plano uma árvore ou morro.

Não é raro aparecerem intrusos nas fotografias, como meteoros, aviões ou satélites artificiais.

Ao terminar o filme, envie-o a um laboratório e peça para revelar.

Aqui cabe uma palavra de advertência. Mesmo que as fotos tenham ficado boas, o laboratório provavelmente não as ampliará, pois achará que não há qualquer imagem nos negativos. Você então deverá assinalar os fotogramas para serem ampliados.

Às vezes não é fácil perceber no negativo onde começa uma foto e termina a outra, mas com um pouco de prática, essa dificuldade desaparece. Uma sugestão é assinalar com uma caneta esses limites para o laboratório identificar o fotograma que se quer ampliar. Pode-se, também, a cada quatro ou cinco fotos fazer uma exposição mais demorada para torná-la bem visível e, conseqüentemente, possibilitar a identificação dos limites dos outros.

Quanto mais transparente estiver o céu, melhor o resultado. Deve-se evitar a todo custo noites com Lua cheia e lugares próximos a luzes. Mas nas regiões metropolitanas, também é possível obter bons resultados, desde que se tome cuidado com o tempo de exposição, que não deverá exceder três ou cinco minutos para que a foto não vele.

Finalmente, anote todos os dados importantes como: região fotografada, hora, equipamento, tempo de exposição, diafragma, filme, etc. Este procedimento é fundamental não só para documentar o trabalho como para identificar erros e acertos.

A prática continuada será a melhor escola para dominar essa interessante técnica.

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Fernando Vieira
Astrônomo e Diretor de Astronomia e Cultura da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro - Sócio fundador da Associação Brasileira de Planetários, onde ocupou os cargos de Diretor Técnico-científico e, após, Diretor-Presidente. http://lattes.cnpq.br/7951408542400175