Dia da mentira

    A Terra é o centro do Universo. Ao seu redor, giram o Sol, a Lua e os outros planetas, bem como as demais estrelas, apoiados todos em esferas cristalinas invisíveis. Isto é mentira, hoje sabemos. Porém, até o final do século XVI, foi isso o que se acreditou a respeito do sistema solar e do Universo. Foi Nicolau Copérnico quem propôs o sistema heliocêntrico, com a Terra e demais planetas orbitando em torno do Sol. Este sistema começou a ser popularizado através dos trabalhos de Galileu Galilei e, posteriormente, Johannes Kepler.

    Então a Terra não é o centro do Universo. Mas se é a Terra que gira, pelo menos podemos afirmar que o Universo é estático e imutável. Mentira. Este Universo eternamente perfeito servia de pano de fundo para a Lei da Gravitação Universal proposta por Isaac Newton, no final do século XVII (lei esta que validava em definitivo o sistema heliocêntrico). Mas no começo de nosso século, observou-se que as galáxias se afastam umas das outras, o que sugere que o Universo como um todo está em expansão. Hoje existem vários modelos cosmológicos (sendo o mais popular conhecido como modelo do Big Bang) que explicam esta expansão global.

    A evolução de qualquer ciência é assim. Antigas hipóteses e teorias, à luz de novas descobertas, podem tanto ser confirmadas como podem mostrar-se equivocadas. Na Astronomia, talvez isso seja enfatizado devido à dificuldade da coleta de dados. Ainda hoje, com poderosos radiotelescópios, sondas espaciais e o telescópio Hubble à nossa disposição, estamos sujeitos a sustos e surpresas, boas e ruins.

    Mas por que falar de mentiras? Ora, estamos em abril. E o dia primeiro é conhecido internacionalmente como o dia da mentira. E isto também tem uma razão astronômica. O calendário de Rômulo e Numa Pompílio começava em março, martius. Apesar de Júlio César ter transferido o início do ano para 1o de janeiro (em 45 a.C.), muitos povos sob domínio ou influência romana resistiram a esta mudança; os franceses principalmente.

    Os franceses insistiram em iniciar o ano no dia 25 de março até meados do século XVI. Este dia é bastante significativo por estar próximo a um dos equinócios (equinócio de primavera para eles). Ao 25 de março seguia-se uma semana de festividades, culminando no dia 1o de abril. Quando, em 1564, o rei Carlos IX decretou que também o povo francês deveria respeitar o calendário romano (já sob o comando da Igreja Católica e conhecido como calendário gregoriano), muitos de seus súditos protestaram. Para eles, o primeiro dia útil do ano seria sempre o 1o de abril. Assim, os que acataram a decisão do rei passaram a hostilizar os outros. Com o passar do tempo, as hostilidades deram lugar às brincadeiras, como a troca de falsos presentes.

    Até hoje pregam-se peças e contam-se mentiras, honrando esta tradição. Quando? No dia 1º de abril. E esta é a mais pura verdade.