Por Alexandre Cherman – Astrônomo da Fundação Planetário
O que há de tão especial no bóson de Higgs? Por que ele tem o imponente apelido de “partícula de Deus”?
Antes de responder a essas perguntas, acho prudente explicar o que é um bóson, no geral, e o que é um bóson de Higgs, em particular.
Bóson é um nome genérico que se dá a um determinando tipo de partículas. Recebem este nome em homenagem ao físico indiano Satyendra Nath Bose, um dos pioneiros da Mecânica Estatística.
Em um mundo quantizado, tudo pode e deve ser representado por partículas, ou “quanta” (plural de quantum). As forças entre os corpos também. Ou melhor, os campos de força onde os corpos estão inseridos. (Não há nada de esotérico nisso; pense no tão comum campo de força gravitacional...) As forças são “levadas” de um ponto ao outro por partículas. Estas partículas são os bósons.
Resumidamente, bósons podem ser entendidos como os “intermediários” das forças. É a troca deste tipo de partícula entre os corpos que resulta no que chamamos, macroscopicamente, de “força”. O bóson mais famoso é o fóton, partícula de energia, intermediário da força eletromagnética.
Outro bóson bem famoso, mas até então nunca observado, é o bóson de Higgs. Previsto teoricamente nos anos 1960 por Peter Higgs, o bóson de Higgs é uma partícula fundamental que deve ter sido comum no Universo jovem, mas rara nos dias atuais. Ele precisa de altíssimas energias para existir.
Agora sim, podemos voltar às perguntas iniciais. O que há de tão especial no bóson de Higgs? Sua principal propriedade, o que o torna tão especial, é ser o intermediário de um fenômeno teórico que concede a massa às partículas. Por isso mesmo ganhou este apelido, “partícula de Deus”.
No modelo padrão, que explica as partículas fundamentais que formam todas as coisas, havia uma profunda simetria no Universo jovem (isso quer dizer que tudo era homogêneo, nada era diferente de nada, tudo era igual a tudo o mais). Podemos imaginar isso como uma “multidão sem rostos”, uma “legião de pessoas anônimas e desconhecidas”. Nessa analogia “humana”, o bóson de Higgs seria uma “celebridade”, alguém extremamente famoso e popular. Onde quer que ele passe, os “anônimos se juntam para prestigiá-lo”. E assim, na presença do bóson de Higgs, o que era totalmente homogêneo e simétrico vai se tornando diferenciado, com “condensações” e “grupos” (as partículas com massa).
Em palavras simples, este é o intricado “mecanismo de Higgs para a quebra de simetria”, que é intermediado pelo bóson de Higgs. E é por isso que o bóson de Higgs é tão especial e tem o apelido que tem. Como seu habitat natural é o Universo muito jovem (muito pequeno, quente e energético), cientistas ainda não conseguiram captá-lo nos dias atuais.
Ou conseguiram? Notícias vindas da Suíça são animadoras!

