Por Alexandre Cherman – Astrônomo da Fundação Planetário
Terminei meu último post com a pergunta: será que os cientistas do CERN conseguiram finalmente detectar o bóson de Higgs?
Passados alguns dias, a resposta é quase certamente “sim”. E por que não um “sim” simples e direto? Ainda há muitos detalhes a serem estudados, muitos dados a serem consolidados e, por isso mesmo, os próprios cientistas que participaram do experimento dizem que tem 99,9999% de certeza de terem detectado o bóson de Higgs.
E esta detecção seria a comprovação de que a idéia de Peter Higgs, formulada nos anos 1960, estava correta. Sua hipótese seria elevada ao status de teoria.
Nunca é demais lembrar a diferença, para a Física, entre esses dois termos. Hipótese é uma idéia matematicamente consistente, que não viola nenhuma lei ou princípio conhecido e que traz uma explicação para um fenômeno até então inexplicado. Uma vez que a hipótese tenha tido comprovação experimental, ela se torna uma teoria.
Mas, para o bem da ciência, sempre haverá os mais céticos, os que remam contra a maré, os que não se acomodam. É desta tensão que nascem ideias geniais; é ela que faz a Ciência avançar.
Não há dúvida que o LHC encontrou uma nova partícula. Se esta nova partícula é o bóson de Higgs (e há muita confiança de que seja), excelente! Hipótese vira teoria e ficamos todos mais confiantes em nosso entendimento acerca do Universo. Mas e se não for o bóson de Higgs, a partícula agora encontrada?
É justamente isso que cogita o maior cosmólogo brasileiro, o físico Mário Novello. Novello nunca endossou a hipótese de Higgs e explica o porquê de maneira muito simples. É fato que os níveis energéticos gerados pelo LHC, para a detecção do bóson de Higgs, são elevadíssimos. Isso, no mundo da física de partículas, equivale a dizer que a massa do bóson de Higgs é muito grande. Para Novello, e muitos dos que põem em cheque a hipótese de Higgs, isso traz um paradoxo lógico. Se o bóson de Higgs é responsável por conceder massa às partículas, o que concedeu massa ao bóson de Higgs?
Aqui entramos no pantanoso terreno dos sistemas auto-interativos e não-renormalizáveis. Há maneiras de desfazer este paradoxo, mantendo a hipótese de Higgs. Mas talvez o jeito mais simples de fazê-lo seja refutar a própria existência deste bóson tão singular.
Resumindo: a pergunta crucial antecede o experimento. A pergunta é: o bóson de Higgs existe? Muitos acham que sim. E para isso divisaram um grande experimento que, aparentemente, obteve um resultado positivo. Mas alguns acham que não. Quem está certo? Só o tempo dirá.

