Pégaso: uma constelação cheia de surpresas

A primavera é a época do ano ideal para observar Pégaso, uma constelação boreal pouco conhecida entre os brasileiros. A lenda do cavalo alado, nascido do sangue derramado pela terrível Medusa, provavelmente é mais conhecida que a constelação. No entanto, a constelação apresenta uma riqueza de objetos celestes. 

Olhando para o norte, cerca de 45 graus acima da linha do horizonte, notamos 4 estrelas de brilho médio formando um quadrado. Apenas três delas fazem parte do Pégaso: Markab, Scheat e Algenib. A outra estrela do quadrado é Alpheratz, que faz parte da constelação de Andrômeda. A carta celeste abaixo ajuda a identificar a região.

Carta celeste do início da noite para a Cidade do Rio de Janeiro e arredores.

Uma das estrelas mais brilhantes da constelação é Scheat, uma enorme gigante vermelha quase 100 vezes maior que o Sol.

Outro objeto muito interessante na constelação de Pégaso é quase invisível a olho nu: é a estrela 51 Pégaso. Localizada a 50 anos-luz de nós, ela é bem parecida com o nosso Sol. Em torno dessa estrela, foi descoberto, em 1995, o primeiro planeta extrassolar. O planeta, que é gasoso e tem quase a metade da massa de Júpiter, está bem perto da estrela. Ele completa uma volta ao redor da estrela em apenas quatro dias.

Perto de Enif, temos o belíssimo aglomerado globular M15, descoberto em 1746 pelo astrônomo italiano Jean-Dominique Maraldi, durante uma busca por cometas. O aglomerado tem cerca de 13 bilhões de anos. Trata-se de uma relíquia dos primórdios de nossa galáxia, que dista 34.000 anos-luz. Uma de suas características mais marcantes é a alta concentração de estrelas: embora seu diâmetro seja de 200 anos-luz, mais da metade das estrelas está localizada nos 10 anos-luz centrais. De fato é uma das maiores concentrações de estrelas conhecidas.

Aglomerado globular M15. A seta amarela indica a posição da nebulosa planetária Pease 1. Crédito: NASA/ESA.

Outra curiosidade sobre o aglomerado globular M15 é a existência de um tipo raro de buraco negro em seu centro. Buracos negros supermassivos são encontrados no centro de galáxias, e podem ter bilhões de vezes a massa do Sol. No extremo oposto, buracos negros oriundos de estrelas podem ter cerca de 10 vezes a massa do Sol. Cálculo das velocidades das estrelas centrais em M15 indicam um buraco negro “intermediário”, com cerca de 4.000 vezes a massa do Sol.

Uma curiosidade histórica importante: M15 foi o primeiro aglomerado globular conhecido a possuir uma nebulosa planetária (uma nuvem de gás rodeando uma estrela que está morrendo). A nebulosa planetária se chama Pease 1 e foi descoberta, em 1928, por Francis G. Pease. Na imagem acima, Pease 1 é o objeto bem brilhante de cor azul identificado pela seta.

Trata-se de uma ocorrência extremamente rara: existem milhares de nebulosas planetárias em nossa Galáxia, mas, até hoje, conhecemos apenas quatro delas em aglomerados globulares. O Telescópio Espacial Hubble captou imagens delas:

As quatro nebulosas planetárias descobertas em aglomerados globulares. Da esquerda para a direita: Pease 1, IRAS 18333, JaFu 1 e JaFu 2. Crédito: Hubble.

Como você já percebeu, fato interessante é o que não falta sobre a constelação de Pégaso. Que tal aproveitar o momento propício e tentar identificar essa constelação? Use a carta celeste e tente identificar o “quadrado”. O aglomerado globular M15 pode ser observado com binóculo ou telescópio. 

Boa observação!

 

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Paulo Cesar Rodrigues Pereira
Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro - Especialização em Astrofísica e atualmente está envolvido com História da Ciência. Desenvolve atividades na área de divulgação e ensino de Astronomia. http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4791842T2