Sputnik, Filho da Guerra Fria

O produto pacífico da guerra fria foi sua contrapartida espacial: satélites, naves tripuladas e sondas interplanetárias. Na disputa entre EUA e URSS, chamada de Guerra Fria, o importante era fazer mísseis para despejar “horrores” nucleares sobre os inimigos. Felizmente, esta guerra nunca esquentou e, como resultado daquela corrida, temos os satélites artificiais. Faz 60 anos do lançamento do Sputnik.

A Alemanha nazista bombardeou a Inglaterra e a Bélgica com quase de 3.000 foguetes V2, entre setembro de 1944 até o fim da Segunda Grande Guerra, causando 9.000 mortes. Os foguetes partiam de vários pontos da Europa continental, descreviam um arco parabólico e caíam sobre o alvo. Seus propelentes eram oxigênio líquido e álcool etílico. Muito deste álcool provinha de batatas que poderiam matar a fome de milhares. A fábrica onde os V2 eram construídos utilizava a mão de obra escrava.

Com o final da guerra, os antigos aliados, EUA e URSS, avançaram no território alemão vindos do oeste e do leste, respectivamente. Ambos tinham o propósito de capturar o máximo de V2, documentos e técnicos para desenvolver seus próprios mísseis. O cabeça do projeto, Wernher Von Braun (1912-1977), se estregou aos norte-americanos. O engenheiro alemão, Helmut Gröttrup (1916-1981), da equipe de Von Braun, trabalhou para os soviéticos auxiliando a criação de suas próprias versões do V2. Entretanto, foguetes de um só estágio, como o V2, não poderiam levar ogivas a distâncias continentais e também não poderiam pôr um satélite em órbita (objetivo secundário dos governos envolvidos).

O foguete R7 também chamado de Semiorka.

Foi o engenheiro Sergei Korolev (1907-1966) que tocou o projeto espacial soviético. Korolev foi tirado de um gulag para chefiar o programa de foguetes soviético. Ele tinha sido preso por acusações de sabotagem durante o governo de Stalin. Korolev idealizou o primeiro foguete feito para ser o primeiro míssil balístico intercontinental soviético, o R7. Este era bem mais avançado que os V2. Tinha dois estágios e o primeiro era composto de quatro foguetes cônicos descartáveis que tinham seis motores cada um. Em 4 de outubro de 1958, foi o R7 que se tornou o primeiro artefato humano a pôr um satélite artificial em órbita.

Wernher Von Braun com Walter Disney. O satélite Vanguard e o foguete Viking.

Os norte-americanos também tinham o propósito de pôr um satélite artificial em órbita no Ano Geofísico Internacional de 1957. Entretanto, proibiram Von Braun de fazê-lo devido ao seu passado nazista. A Marinha norte-americana tentou, sem sucesso, colocar o satélite Vanguard em órbita. Isso criou uma situação política desconfortável que ficou conhecida como a Crise do Sputink. O Exército norte-americano tinha um projeto intitulado “Explorer”, que só foi bem sucedido em janeiro de 1958, sob a orientação de Von Braun. Essa crise acabou por criar a NASA, a agência espacial que iria centralizar os esforços espaciais norte-americanos desde então.

Veja este excelente documentário para conhecer toda a trama do início da corrida espacial: https://www.youtube.com/watch?v=H6Kc-Zi4tU0

Outra ótima dica sobre a época é o filme “Céu de Outubro” (October Sky – Joe Johnston, 1999): https://www.youtube.com/watch?v=8u_t2-UIckQ

Palestra no Museu de Astronomia: http://www.mast.br/index.php/component/content/article.html?id=2824

 

Compartilhar
Naelton Araujo
Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro - Mestre em educação, gestão e difusão em ciências. Curador do Cineclube SciFi e idealizador do Encontro Nacional de Astronomia (ENAST). Especializado em Radioastronomia. Experiente em Mecânica Celeste, História da Astronáutica, e Ficção Científica. http://lattes.cnpq.br/6815906108362292