Translação ou Revolução?

 

 A idéia de que a Terra se move é relativamente nova, se considerarmos que as mais antigas ciências surgiram com a civilização humana (algo entre 7 mil e 10 mil anos atrás). Ainda que alguns pensadores antigos, notadamente Aristarco de Samos, na Grécia, tenham defendido que a Terra era um planeta como outro qualquer e que, portanto, movia-se pelo vazio do espaço, o paradigma científico, desde a época de Aristóteles (século IV antes da Era Comum), sempre foi considerar a Terra fixa, no centro do Universo.

(A própria palavra Universo surgiu a partir desta concepção equivocada. Se a Terra estava fixa, no centro, a única maneira de explicar o ciclo diário dos objetos celestes era supor que giravam todos em uníssono. O conjunto dos objetos celestes passou a ser chamado de “aquilo que gira como algo único”, unus verterem, em latim. Daí a origem da nossa palavra Universo.)

Mas a Terra se move, hoje já não há mais dúvidas. A revolução copernicana, em meados do século XVI, colocou nosso planeta em seu devido lugar: girando ao redor do Sol. Copérnico não conseguiu se livrar de sua educação aristotélica por completo e preconizou órbitas circulares; estava errado. Kepler, em 1609, defendeu corretamente que as órbitas planetárias (a da Terra inclusive) eram elipses.

A alternância entre os dias e as noites, bem como todos os ciclos diários vistos no céu eram causados pelo movimento de rotação, que a Terra realiza em torno de si, com período de cerca de 24 horas. Já a mudança das estações, o caminho do Sol pelo Zodíaco, o movimento retrógrado dos planetas, tudo isso é conseqüência de um outro movimento terrestre, que nosso planeta faz ao redor do Sol: a translação.

Translação? Seria esse o nome correto deste movimento da Terra? Ou este movimento, por ser cíclico, não deveria ter sido batizado de revolução? Curiosamente, foi este o termo usado originalmente pelo próprio Copérnico, como atesta o título de sua obra maior: “Da Revolução das Orbes Celestes”. Chega a ser até curioso perceber como uma palavra nos serve tão bem a dois propósitos distintos.

A palavra “revolução” tem várias acepções; segundo o Dicionário Aurélio, revolução é uma “transformação radical dos conceitos artísticos ou científicos dominantes numa determinada época”. Assim, é óbvio que estamos, ao migrarmos do sistema geocêntrico para o heliocêntrico, em meio a uma revolução. A revolução copernicana. Mas a palavra “revolução”, ainda segundo o Aurélio, também significa “volta, rotação, giro”. Ou seja, a palavra “revolução” descreve muito bem o movimento que a Terra faz ao redor do Sol.

Está mais do que correto, portanto, dizer que os dois principais movimentos da Terra chamam-se rotação (ao redor de si mesma) e revolução (ao redor do Sol).

E a translação? Confesso que não sei quando este termo entrou na Astronomia (mas a pesquisa continua!). É quase certo que tenha surgido, nesse contexto, primeiramente em francês. Mas chamar o movimento da Terra de translação é um erro do ponto de vista físico, pois a palavra “translação”, sempre de acordo com o Aurélio, significa “movimento de um corpo em que todas as partículas têm em cada instante a mesma velocidade e esta mantém uma direção constante”. Esta definição, um pouco hermética, equivale a dizer que a translação é o deslocamento de um corpo, em movimento uniforme, ao longo de uma linha reta. Isso, obviamente, a Terra não faz ao redor do Sol.

O erro é tão antigo e está tão arraigado em nossa língua que o próprio Dicionário Aurélio registra, logo depois, a definição de “translação da Terra”! E define este termo como o movimento que o nosso planeta realiza ao redor do Sol. Parece-me que este movimento, então, sofre de uma identidade dupla. Do ponto de vista mecânico, seguindo as leis da Física, este é um movimento de revolução. Mas de acordo com o uso comum — e a própria Astronomia! –, este movimento possui um nome próprio: Translação (que, a rigor, deveria ser grafado sempre com letra maiúscula, pois se trata agora de um nome próprio).

Resumindo, os dois principais movimentos da Terra (na verdade, de qualquer planeta do Sistema Solar) são a rotação e a revolução. Para o nosso planeta, em especial, a revolução, movimento cíclico ao redor do Sol, ganhou, por misteriosas razões lingüístico-astronômicas, o nome de Translação.

Retomando a pergunta inicial. Translação ou revolução? Tanto faz, desde que se saiba o que se está querendo dizer.

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Alexandre Cherman
Astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro Experiência na área de Astronomia, Física e Matemática, com ênfase em Astronomia Fundamental, Cronologia e Cosmologia, atuando principalmente nos seguintes temas: divulgação científica, cosmologia, educação, história da ciência, história da física e visualização científica. Possui seis livros publicados. http://lattes.cnpq.br/3947740530141462