TRÊS VISÕES VERNIANAS

A coluna hoje vem com uma micro-entrevista com autores de Ficção-Científica da atualidade que
escreveram histórias onde Júlio Verne é um personagem: Octavio Aragão, “A Mão Que Pune –
1890” (2018), João Barreiros, “A Verdadeira Invasão dos Marcianos” (2004); David Brin, associado
com Gregory Benford “Paris Conquers All!” (1996). Da dupla, coube a Brin representá-la na
entrevista. Os dois primeiros títulos são livros, o terceiro é um conto. Segue uma rápida
apresentação antes da entrevista em si, junto com links dos autores:

João Barreiros nasceu em Lisboa, Portugal. Filósofo formado, atuou como escritor de Ficção-
Científica e antologista, havendo ainda ajudado a organizar o fandom português.
https://www.facebook.com/joao.barreiros.9

Octávio Aragão é carioca, Designer Gráfico por formação e Professor-Doutor na pós-graduação da
Escola de Comunicação da UFRJ, onde também organiza o Prêmio LeBlanc de Ficção Científica e
a Semana Internacional de Quadrinhos.
http://octavioaragao.blogspot.com

David Brin é americano, nascido na Califórnia. É Astrofísico, sendo consultor da NASA, Google
entre outras corporações. Escreve ficção-científica: o filme O Carteiro (1997), com Kevin Costner,
é adaptado de sua obra, mas em literatura é mais conhecido pelo universo do Universo Uplift (em
Portugal foi publicado a trilogia de Uplift, sob o nome de “A Guerra da Elevação”).
https://www.davidbrin.com

Em poucas linhas, sobre o que é o seu livro?
JB: O meu livro trata o tema da vingança. Num universo ocupado por alienígenas “politicamente
correctos”, um miúdo é apanhado na escola a ler o livro do Wells, “A Guerra dos Mundos”.
Basicamente os professores, uma espécie de térmitas inteligentes e sensíveis, consideram o livro
racista em relação aos marcianos, confiscam-lhe a obra e fazem-lhe uma pequena lavagem ao
cérebro para que ele se esqueça de tudo. Tudo corre mal, claro. O processo de lavagem ao cérebro
não resulta e ele vinga-se, ao longo de uma vida inteira, tornando algo que ele acabou de ler em
qualquer coisa de muito real. Enfim, Herbert Goodfellow cria a verdadeira Guerra dos Mundos,
constrói com as suas próprias mãos uma civilização marciana feita à base de polvos horríveis e
imperialistas. Toda a história é uma metáfora, claro. Os vossos pais e educadores nunca vos
proibiram de ler bds ou livros de FC? Ora, esta é a minha (nossa) vingança.
OA: Imagine que Julio Verne se tornou o primeiro presidente eleito da França, logo depois da
queda de Napoleão III, trazendo para Paris todos os gênios científicos à sua disposição, incluindo
um certo Prendick, herdeiro e implementador dos protocolos Moreau de modelagem da carne. Junte
isso à ganância de outras potências européias, um imperador brasileiro vagando por terras francas,
um cartunista italiano desolado pela morte da mulher e o desaparecimento do filho recém nascido,
alguns homens e mulheres de índoles diversas e um assassino monstruoso com uma agenda própria
e o futuro do mundo estará, irremediavelmente, comprometido.
DB: A antologia Global Dispatches* pediu a 20 autores de ficção-científica para escrever histórias
durante a invasão marciana apresentada em “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells. Cada um de
nós escolheu um famoso escritor dos anos 1880 para contar uma história sobre confrontos com os
invasores. Gregory Benford e eu escolhemos Júlio Verne para contar o que aconteceu quando os
Marcianos chegaram em Paris. Nós procuramos manter o estilo e otimismo sem limites de Verne.

Qual a importância de Júlio Verne para a sua história?
JB: As relações entre Jules Verne e Wells sempre foram frias. Embora nunca se tivessem
encontrado no universo real, nenhum dos dois gostava dos trabalhos do outro. Wells achava
aborrecidas as obras de Verne. Verne dizia que Wells inventava demasiado. E contudo foram eles
que iniciaram as duas rotas paralelas daquilo que viria a ser chamada a ficção científica. Wells criou
o “scientific romance”, Verne as “viagens extraordinárias”. Tinham os dois visões do mundo
diametralmente opostas. Wells simpatizava com o socialismo enquanto Verne era profundamente
conservador. Um escrevia para adultos, o outro tinha em mente a educação dos jovens. À data de
1900, um ainda era jovem, o outro viria a morrer cinco anos mais tarde. Um receava o futuro, o
outro ansiava por ele. Por isso, nada mais interessante do que juntar os dois, como jornalistas, numa
expedição punitiva a Marte que, neste universo, Wells imaginou mas nunca chegou a escrever.
OA: Sem Júlio Verne e seu espírito empreendedor não haveria meu romance (o segundo** de uma
série). Mesmo quando não está presente, ele assombra as paginas. É seu caráter e sua fé no lado
bom da ciência e seus artefatos que permeia todo o livro, mesmo quando parece não haver nenhum
motivo para esperança ou bons pensamentos.
DB: Verne não é somente a inspiração para a história, mas um narrador e personagem atuante. Ele
vem com uma ideia com a qual os cidadãos de Paris defendem sua cidade.

Quando você, como leitor, descobriu Júlio Verne e o que ele significa para você?
JB: Descobri-o na biblioteca do meu avô aí pelos meus oito anos de idade, naquela época em que
eu devorava tudo o que me era posto entre as mãos. Não havia muitos livros do Verne, aí uns cinco
ou seis, mas entre eles estava a “Viagem ao Centro da Terra” e o “Da Terra à Lua”. Gostei da
“Viagem”, mas achei o “Da Terra à Lua” uma chatice do caraças, onde os infodumps sufocavam
toda a narrativa. No meio de toda aquela confusão referencial, havia também as obras do Edgar
Rice Burroughs, principalmente do Tarzan. Esses li-os todos. Tenho de confessar que adorei juntar o
Burroughs, o Verne e o Wells numa só narrativa, juntamente com alguns dos personagens que eles
criaram.
Hoje em dia consegui juntar na minha biblioteca toda a obra de FC do Wells, assim como
praticamente todos os livros do Verne (64)… ufa… e, para meu terror, no acto da releitura, é o
Burroughs quem eu tenho mais dificuldade em assimilar. Wells lê-se para sempre e mais um dia.
Quanto ao monsieur Jules Verne… bom, é um marco, mesmo quando dá o seu nome a obras que
nunca escreveu.
OA: Meu encontro com Verne aconteceu cedo, creio que antes dos dez anos, quando descobri a
série animada “Viagem ao Centro da Terra”. Daí para os romances foi um pulo. Pouco mais tarde,
vi uma reprise de “Vinte Mil Léguas Submarinas” no cinema, e aí foi impossível não sonhar com as
formas retrô do Nautilus e as aventuras submarinas do Capitão Nemo. Para mim, Verne, que leio até
hoje com certa regularidade, era a encarnação do espírito desbravador da humanidade, aquilo que
um dia ainda vai nos salvar de nós mesmos. Gosto de acreditar que ele foi canonizado por minha
igreja particular. São Júlio Verne vela por nós, mesmo em tempos de obscurantismo e ignorância
galopante.
DB: Tanto os livros como os filmes foram importantes para mim, quando criança.
* Editada por Kevin J. Anderson e publicada em 1996 pela Bantam Spectra. Sem tradução em
português.

** O primeiro sendo “A Mão Que Cria”, publicado pela Editora Mecuryo em 2006. Ambos os
livros podem ser lidos de forma independente.
A coluna agradece aos entrevistados.

Luiz Felipe Vasques
25/02/2019